terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Renato Russo: O Filho da Revolução


O Brasil ainda está em processo de descobrimento (e redescobrimento) do potencial artístico de seu povo. Essa realidade abrange todos os segmentos culturais: música, literatura, artes plásticas, cênicas e aderentes. Por se tratar de um país que está aprendendo a se descolonizar, muitos dos ídolos nacionais são, na verdade, produtos importados das grandes potências – com clara referência para o universo norte-americano e europeu.

Entre tantas assimilações estrangeiras, a década de 1980 surgiu como um grito de identidade nacional, propagando a ideologia punk/rock n’ roll em nosso espaço sonoro. E a jovem capital da Federação – Brasília contava com pouco mais de vinte anos – foi palco de todas as mudanças ocorridas no conturbado período pré e pós abertura política (lembrando que a ditadura militar só viria a ruir em 1985). É com esse plano de fundo que surge a Legião Urbana, um dos maiores fenômenos musicais do país. Capitaneada pelo jovem Renato Manfredini Júnior, a banda mudaria o percurso sonoro, lírico e ideológico da juventude brasileira.

Renato Russo, como ficou conhecido o músico carioca radicado em Brasília, ganhou o status de lenda, tão grande é a notabilidade conquistada por ele como cantor e compositor. Um legado que atravessa gerações, mesmo depois da morte do artista, há cerca de quatorze anos atrás. No meio de várias biografias, ensaios e homenagens póstumas, o livro “Renato Russo: O Filho da Revolução” (Agir, 2009, 400 pág.), escrito pelo jornalista Carlos Marcelo, vem preencher a lacuna do material anteriormente lançado quando o assunto é a relação de Renato com Brasília, enfocando os passos juvenis daquele que, anos mais tarde, seria considerado peça-chave na consciência pop do Brasil.

Carlos Marcelo esmiuçou arquivos pessoais, fez o levantamento de entrevistas (algumas pouco conhecidas), coletou dados e informações valiosíssimas de quem conviveu com Renato Russo, bem como de fontes documentais da época (leiam-se jornais, revistas, programas de rádio e periódicos de todos os gêneros). Um dos pontos altos do trabalho é a exposição de um farto material do cantor, com fotos, cartas, registros de diários, rabiscos, ideias... Em síntese, a obra aborda o dia-a-dia do estudante de Jornalismo e professor de Inglês, filho da classe média e morador da quadra 303 Sul, que chegou a cogitar uma banda imaginária (a 42nd Street Band), usava o pseudônimo de Eric Russell e que, ao contrário do que pregam por aí, era um cara cheio de receios, dúvidas e indecisões, que ostentava uma voz empostada no palco e, fora dele, carregava um timbre quase infantil.

Seguindo a linha de toda biografia autorizada, consentida e/ou compartilhada, “Renato Russo: O Filho da Revolução” faz uso dos já conhecidos “floreios” para transcrever alguns fatos e omitir o deslancho de outros, como a homossexualidade do cantor, seus problemas com drogas e álcool e o nascimento do filho, por exemplo, fazendo do biografado um indivíduo cheio de virtudes, criado em uma família perfeita, seguro de si, absoluto na resolução de situações vexatórias e assim por diante. Não obstante, essas pequenas “licenças poéticas” não diminuem em nada a exatidão do texto, as informações adicionais pré-Legião, o período frutífero com o Aborto Elétrico e a rebeldia e pioneirismo da juventude brasiliense na cena punk rock brasileira. Destaque para a contextualização histórica de cada capítulo, trazendo à tona os sonhos de JK para a capital do futuro, os traumáticos anos de ditadura militar, o lento e reumático processo de abertura política/social e cultural.

Que Renato Russo foi uma mente fenomenal e que tinha completo fetiche por cinema, música, literatura e conhecimento, ninguém duvida. Que o líder da Legião Urbana possuía desenvoltura política, com um lirismo quase antropológico, também não é segredo. Mas, o plus da obra de Carlos Marcelo está justamente na riqueza de detalhes, na sutileza de um Renato Manfredini Júnior que poucos conheceram: uma criança esperta; um adolescente doente e acamado, mas que nunca deixou de sonhar; um jovem rebelde e que possuía muito sangue revolucionário nas veias e ideologia na cabeça; um adulto aclamado pela crítica como exponencial da cultura brasileira, representante da maior banda nacional, mas às voltas com a solidão, com amores não correspondidos, com o fantasma do HIV e problemas na relação bipolar com seu público.

Renato Russo formou sua própria Legião, com uma única diferença: ela segue forte e firme, por entre metrópoles, zonas rurais, planalto central, cerrado, caatinga, atravessando fronteiras, tempos e silêncios.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Palavras que se arrastam

Eu já disse anteriormente que músicas são mais do que parecem ser e que , para mim, elas estão conectadas a coisas, pessoas e/ou acontecimentos que circulam (ou circularam) minha vida. Há cerca de um ano atrás, The Words That Crawled, do Mourning Beloveth, me remetia a outros acontecimentos e pessoas.

Hoje, ela acabou de assumir um contorno diferente.

Observação direcionada: para você, que sabe exatamente do que se trata: "With the deadened silence of my exiled mind shattered a torturous word crawled to the darkest cavern of my being where a dim glow resonated from the eyes of my dead dream and tore a hole in my lachrymal sleep."

-> The wordless world bleeds to the point of despair and the failed attempts to move end in quiet massacres.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Será gentileza uma forma de nobreza?

Se fosse possível elencar - em um consenso universal - os comportamentos mais desagradáveis do mundo, a descortesia figuraria no primeiro escalão. Não tem coisa mais insuportável do que alguém com péssimas maneiras, educação abandonada em privada de banheiro público e mal humor milenar entupindo as artérias.

E a sensação desagradável se multiplica quando a ausência do fino trato ocorre quando você assume a posição de consumidor. Já perdi as contas de quantos funcionários se fazem totalmente dispensáveis em diversos setores comerciais. O motivo? Péssimo atendimento.

Em Teresina, essa realidade pode ser facilmente verificada nos condutores de transporte público urbano e em alguns pontos de alimentação. Nas lojas e departamentos, em geral, o atendimento é delicado, fino e direto. É inevitável não citar a falta de compromisso de certos funcionários públicos que, confiando na estabilidade do emprego, abusam do sorriso voluntário e da boa vontade dos clientes.

Em passagem pelo Rio de Janeiro (excelente, por sinal, o que me faz compartilhar, em primeira vista, com a paixão destilada por Ruy Castro em 'Carnaval no Fogo: Crônica de uma cidade excitante demais'), pude comprovar uma lacuna no bom trato em motoristas de ônibus e, especialmente, taxistas. 90% dos taxistas - e olha que andei MUITO de táxi - são pessoas indelicadas, brutas, sem senso de humor e de direção. Notei um déficit muito grande de conhecimento dos bairros e de localidades, mesmo atuando em ruas próximas e conectadas. Pode ser que eu tenha tido o azar de pegar taxistas oportunistas, que se aproveitavam do espaço para lograr mais um. Acontece que eu estive o tempo todo acompanhada de um morador da cidade, carioca da gema (como se diz por aqui e acolá), e que passava a maior parte do tempo tendo que orientar os motoristas. Estranho.

Em Fortaleza, por exemplo, não consegui deixar de notar uma certa ausência de hospitalidade no comportamento de alguns habitantes. Não sei. Talvez seja porquê meu grupo não chegou falando em outro idioma ou algo assim.

Sentimento compartilhado em outras cidades do país, de norte a sul, e que serão futuramente registradas. Mas, a quem interessar, impressão não é imutável; muito pelo contrário: ela sofre consecutivas metamorfoses.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Arroz com fritas :)

Dia 21 de Janeiro foi aniversário da minha amiga e parceira de crimes jornalísticos que atende pela alcunha de Nane (bem ao meu estilo, né? rs).

Como eu estava fora, registro aqui a minha homenagem posterior e aproveito para dizer: EU TE AMADORO, minha amiga!


terça-feira, 19 de janeiro de 2010

What is this penetration?

Reproduzo fidedignamente o material que o Galeto esboçou no no Napalm Breakfast. E assino embaixo:

Bernard Williams faz uma engraçada colocação no prefácio de sua obra Moral: Uma introdução à ética (1972). Ele diz que a Filosofia moral de seu tempo tem pouca relevância porque os filósofos a tornaram desinteressante, haha. É como se tivessem vergonha de serem considerados parciais quando tratam da Ética e dos costumes... É como se temessem causar controvérsia, ou serem considerados "pregadores". Se não apartarmos toda aquela história sobre rigor metodológico, vamos acabar voltando à Filosofia da ciência e ao impossível desligamento entre objeto de pesquisa e pesquisador. Mesmo com todas as "pretensões de universalidade da Ética enquanto teoria moral", não se fala do que é certo sem se ter a convicção do que é certo (aquele conjunto de valores que aprendemos desde o berço).

Estou errado?

Eu acho que não, mesmo que isso enseje discussões epistemológicas sobre o que é certo ou o que deixa de ser... Exemplo prático acadêmico? Moral capitalista X Moral socialista - senta que lá vem a história:


Jacob Fugger foi um bancário alemão nascido no século XV. Em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, Max Weber contrapõe o ponto de vista desse nobre ao de Benjamin Franklin, no que diz respeito ao trabalho. Como bons capitalistas, ambos enaltecem a nobreza do trabalho - mas até que ponto? Segundo Weber, Franklin aborda a questão de certa forma moralmente neutra, enquanto Fugger tenta torná-la uma máxima orientadora para a vida. Trocando em miúdos: enquanto Franklin diz que é bom trabalhar para poder se sustentar e ajudar aos demais, Fugger diz que é bom trabalhar porque você vai ganhar dinheiro. Me diga você agora: quem está mais certo?

Eu sou filósofo - um dos medrosos que Williams falou -, então vou cumprir meu papel de não fazer julgamentos. Mas só por enquanto.

Discussão aplicada à religiosidade - Eclesiastes. 2, 18-26:

E detestei todo o trabalho com que me afadiguei debaixo do sol, pois tenho que deixar tudo para um sucessor. E quem sabe se ele será sábio ou insensato? Ele herdará o que me custou tanto esforço e habilidade debaixo do sol. Também isso é ilusão.
E acabei por desenganar-me de todo o trabalho com que me afadiguei debaixo do sol, porque um homem que trabalhou com conhecimento, perícia e bom êxito, vê-se depois obrigado a deixar tudo em herança a outrem que em nada colaborou. Também isso é ilusão e grande desgraça. Em verdade, o que resta ao homem de todos os trabalhos e preocupações que o afadigam debaixo do sol? Toda a sua vida foi sofrimento, sua ocupação um tormento; nem mesmo de noite repousava seu coração. Também isso era ilusão.
Não há outra felicidade para o homem além de comer, beber e gozar do bem-estar, fruto de seu trabalho. Notei que isso vem da mão de Deus, pois: "Quem pode, sem mim, comer e cuidar de si?" Ao homem que lhe agrada ele dá sabedoria, ciência e alegria; ao passo que ao pecador ele impõe a tarefa de juntar e acumular, para ser dado a quem agrada a Deus. Também isso é ilusão e frustração.

Estou chegando onde pretendo...

O pesquisador de Filosofia moral mais ingênuo perde-se no próprio objeto de pesquisa. É difícil viver de acordo com o que se estuda... muita gente não consegue viver nem de acordo com o que acredita, oras - vide máximas bíblicas (e olha que citei o Eclesiastes, e não o Eclesiástico!).

But... Life is a bitch, isn't she?

Nem Aristóteles tinha receio de dizer o que era certo a seu filho Nicômaco. Há uma grande diferença entre "submeter os demais a seu conjunto particular de valores" e "construir um ideal moral coletivamente". Por isso, sim, dizer o que lhe vem na telha é o certo a se fazer, contanto que você lembre que não é o único condenado na face da Terra.



Mas você não lembra, não é, seu desgraçado?




Fonte: letras.terra.com.br

What is this penetration?
If not some pre-salvation?
What is a mental attitude?
Why is my fever not in mood?

It's me combining numbers
It's me just playing God
It's me who's making rules here
I cannot come undone

Why don't you compensate
my pain and all my hate
Have you really tried to compromise?
Have you never realized...

Accompanied by faces
that stare at you at night
I'm travelling into your sleep
until you wake up pale from fright

And after all you've been through
I sleep safe like a child
A coward in deceit
It's garbage what you feed them....so

Consider penetration
as instant motivation
Regarding what you said to me
I think that you should never be forgiven

Don't persecute me for what I've done
perplex, poisened, predictable
Permissable disaster, patriotic smiles
predominant agression
if you have (the) guts, resist my trace


A meu ver, Play God! é uma canção libertadora. Essa "penetração" (entendida como compreensão) de que se fala é o estado de espírito livre de julgamentos. "Fingir ser Deus" é como reclamar o controle de suas ações e julgar-se digno de reprovar seus agressores. Uma nova consciência, auto-defesa talvez... Aplica-se bem ao que tenho discutido com meus bons amigos sobre a perfídia.

A maldade insidiosa alcança aos bons e maus da mesma forma. E quem é bom, afinal de contas? Alguém merece mais que qualquer outro? Não é bem essa a questão... A certeza sem sensibilidade é como a intolerância tirânica. Como diria Rousseau: "Conheço muito bem os homens para ignorar que muitas vezes o ofendido perdoa, mas o ofensor não perdoa jamais".

Por isso, quem será capaz de isentar aquele que é culpado publicamente, mas cuja inocência repousa em seu íntimo?


Não entendeu? Escute a música de novo.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

5 melhores lançamentos de 2009

Antecipando a matéria que deve ir ao ar esta semana no Distorção, lanço aqui os 5 melhores lançamentos musicais para 2009 (concernentes ao Heavy Metal):

Internacionais:

CandlemassDeath Magic Doom
Lamb of GodWrath
The GatheringThe West Pole
MegadethEndgame
Katatonia - Night Is the New Day

Nacionais:

No quesito bandas nacionais, só consigo pensar em dois nomes para a categoria de melhores lançamentos:

Empty Grace - Subterranean Soul´s March
Unearthly - Age Of Chaos

Banda piauiense revelação de 2009:

Mesmo sem realizar muitos shows ou apresentar material novo: RETALHADOR. (critério absolutamente parcial, but, who’s care?).

sábado, 16 de janeiro de 2010

Freak Perfume - Diary of Dreams


Intimismo é a palavra que melhor se aplica ao Freak Perfume (2002), sétimo álbum da banda alemã Diary of Dreams. Não no sentido chavão que o termo costuma ser utilizado, e sim, na personalidade das letras e sons, congruentes e fortes, que se atém ao subjetivismo para, ao contrário do que transparece, expor sensações simples, mas que de tão esquecidas acabam ganhando complexidade exagerada.

Misturando elementos do Darkwave e Electrogoth (sub-estilo que, aliás, eu nem sabia que existia), os alemães recriam a atmosfera gótica dos anos 1980, perceptível no lirismo das letras, na sonoridade (onde o uso de elementos eletrônicos é preponderante) e no visual (roupas, maquiagens e posturas góticas). Mas a banda conduzida por Adrian Hates consegue superar o lugar-comum de todas essas passagens goth-pós-anos-1980.

A voz grave e empostada de Adrian parece catalizar todos os efeitos morais e psicológicos das letras que produz. E em Freak Perfume não poderia ser diferente. São 12 faixas com um acervo enorme de sintetizadores, drum machines, módulos, seqüenciadores (obrigada pela dica, Sérgio). Atrelado a isso, estão imagens subliminares de fraturas amorosas, dicotomias de símbolos e ideologias, ideias fixas, perca iminente, frases não ditas... Sentimentos silenciados pela correria cotidiana, pela comunicação falha (ou pela própria ausência dela) e desejos reprimidos pelo esquecimento.

Destaque especial para The Curse (refrão que fica encrostado na garganta), Traumtänzer, Amok, She (inversão, amor e paradoxos), Play God! (excelente! Letra fenomenal!) e She and her darkness (uma declaração de amor submissa e tocante, mas que diz exatamente o que eu gostaria de ter tido em muitas ocasiões da minha vida).

Uma recomendação não apenas para quem vive imerso no universo gótico e aderentes, mas para quem se identifica com temáticas que envolvem lirismo, poesia, semiótica e música eletrônica. Intensidade garantida.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

It's me who's making rules here...

Em Janeiro de 2009, por recomendação de uma colega búlgara, eu baixei Freak Perfume (2002), sétimo álbum da banda alemã Diary of Dreams. Baixei e esqueci. Até que ele foi se desenrolando aos pouquinhos e hoje é parte de mim.

Play God!, música que me faz reconhecer a força do subconsciente na atuação humana:

O pincel do ego

Conversando com um amigo (muito, MUITO querido) no início da manhã desta quinta-feira, alguns sentimentos começaram a vazar. O mais impressionante foi ter, através de uma conversa simples, chegado à conclusão de que nossas afirmações podem ser, via de regra, símbolos de nossas ostentações.

Por mais que nossas palavras apareçam despidas de primeiras intenções, no fundo, guardamos a bolha fria e calculada de nosso EGO. Lembro de uma história antiga, na qual também fui protagonista:

Estava com alguns amigos em uma pizzaria. Era dia de rodízio e o local nunca esteve tão lotado. Éramos uma mesa aparentemente eclética, mas composta por pessoas com C.R elevado e tino ''intelectual aguçado''. Considerações que não demoraram muito a despontar quando o ''menor sinal de perigo'' se aproximou. Duas mesas depois, um grupo de amigos ocupara mais de 30% da pizzaria. Eram jovens bonitos; meninas extremamente bem maquiadas, vestidas e ''joificadas''; rapazes com roupas sociais, rodando a chave dos carrões nos dedos (conferimos pelos vidros) e esbanjando beleza (que o diga o moço dos olhos azuis, cabelo comprido, tatuagem e brincos que sentou na minha frente).

Em nossa mesa, um minuto de silêncio. O grupo voltou todas as atenções para si. Garçons, pratos, pessoas... Parecia que o local tinha sofrido uma imediata intervenção federal nos moldes de 1970: só para filhos de militares. Eles falavam alto, faziam gestos expansivos e pareciam donos do lugar. Prosseguimos com nosso diálogo, que, pelo que me lembre, tratava dos filmes de Kubrick e dos livros de Aldous Huxley . Um dos caras que estavam no grupo da alegria ''sussurrou'' alto: "Porra, uma mesa só de Nerds! Que bosta, hein? Olha o jeito desses filhos da puta! Que coisa!", e desatou no riso, acompanhado por todos da mesa.

Quando paramos e ouvimos, continuamos com a máscara silenciosa da indiferença, mas comentando entre nós: "Bando de putas e viadinhos com rabo cheio da grana do pai!". E pairou uma hostilidade tácita, até que uma das moças citou Schopenhauer pensando se tratar de Nietzsche, sendo apoiada pelo coro dos contentes. A gargalhada foi incontida lá pra nossa banda. O picadeiro palco estava armado. Insultos de ambos os grupos, feito aldeia tribal, que se espalhavam no ar. Ostentações e armações de ego. De um lado: sou o mais foda, a mais gostosa, o mais rico, a mais bonita. Do outro: sou inteligente, brilhante, penso o que você nunca vai cogitar, e por aí vai.

No fim, todo mundo comeu, satirizou e foi para casa com o ego esfaqueado e inflamado. Dicotomia dos prazeres de dar inveja a qualquer Dionísio e entristecer Sêneca. A lição final fica com o velho índio: "Cuidado com o lobo que você alimenta".

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

História (sufocada) da classe média (alta)

Pompeu é vizinho de um vizinho meu. Todos os dias, ele desfilava seu porsche prateado pelas ruas da zona leste de Teresina. É filho de uma dessas autoridades políticas, nas quais a função vem antes do nome (e por que não da pessoa?).

Em ritmo de ostentação, Pompeu já trocou de curso superior milhares de vezes. Antes disso, reprovou uns 5 anos entre o ensino fundamental e médio (não reprovou mais porque sempre existe educandários dispostos a enfrentar todos os contra-tempos do "ensino à distância"). Depois, cansado da maçante vida acadêmica, pediu ao pai um emprego público, desses comissionados. Conseguiu. Felizmente, o nepotismo caiu e ele teve que se contentar com empresas privadas de amigos da família (coisa entre irmãos, sabe?).

Até que, dia 01 de janeiro, Pompeu, esperando alguém chegar em casa para pegar o primeiro avião com destino a Honolulu, calhou de deixar a TV no canal da Band (emissora insossa), e, sem querer, ouviu a voz do apresentador Boris Casoy (who?!?) vazar alguma coisa a respeito dos garis.

Meu vizinho - e muito menos eu - não tem a mais remota ideia das mudanças que se operaram depois disso. Pompeu foi internado em uma clínica particular, não se sabe como e nem para quê, e anda às voltas com o livro do Fernando Braga da Costa (aquele psicólogo que, ainda acadêmico, se interessou pela história de vida dos garis).

As pessoas mudam (ou perdem o fio cobre da sanidade). Vai saber...